sexta-feira, 28 de março de 2008

Janela

Do largo buraco na parede
Tento observar o mundo
E viro as costas
Para outra realidade

Onde os prisioneiros
Carregam molhos de chaves
Que fecham portas, bocas,
Cadeados e corações.

Se dia, tilintam talheres, pratos,
São curtos os diálogos
Se noite, o silêncio grita
Os que se dizem inocentes dormem

Ronco apenas meus passos,
Pés de insônia madrugada
E por vezes ouço o arrastar de correntes
Da alma

De um velho português
Pelas escadas
Ligeira impressão de que ele
Fixamente, pela mesma janela, sonhava

(março- 2008)

Não poeta

Não sou poeta
Sou apenas um poema
De palavras desconexas
Letras tortas e embaralhadas
Infinitas vírgulas
Sinuosos pontos

Poema rasgado do livro
O inútil e amarelado
Papel dobrado sobre a mesa
De tão estranha escrita, linguagem aflita
Tornou- se a chama de acender o charuto
Do verdadeiro poeta

Através do fogo era ainda possível
Observar os últimos
Esquisitos garranchos de mim
Um poema antigo
Sem autoria
Nem data no canto da página

Não era poeta
Apenas um poema maldito
Infinito
Pois se bem me lembro,
Depois da última palavra
Havia reticências

Assaltos

Tirem-me a casa
As roupas do armário
Até as do corpo
E o dinheiro que não tenho

Podem levar livros, discos
E tudo mais que prezo
Levem os anéis
Arranquem meus dedos

Apaguem meu nome
Perturbem meu sono
Mas deixem minhas lembranças e desejos
Memória e silêncio

Foda

Década de 70.
No apartamento do quinto andar
Que minha tia morava
Em plena Boa Vista
Pra Ponte Duarte Coelho
Havia uma indiazinha.
Sempre sorridente
Que ajudava nos afazeres domésticos
Pés descalsos no asfalto
Deitava cedo e dormia no chão
Pois o achava mais confortável que colchão.
Aritana era tímida
Sempre solícita e de pouca fala
Tinha uma característica muito engraçada
Trocava o “S” pelo “F”
Sempre que o encontrava nas palavras.
Um dia, perto da hora do almoço
Minha tia pediu que ela fôsse a venda
Comprar um guaraná e uma coca
E se não tivesse coca-cola

Trouxesse soda.
Antes mesmo de ela voltar
Titia lembrou-se do mal entendido que poderia causar
E rezou para que
não faltasse a bendita coca.
Logo entrou Aritana
- Dona, não tinha coca nem guaraná!
E sorrindo, mostrou duas garrafas de Soda

Mirante

Beija-me
Saliva de manga-rosa
Envolvam-me

Braços da copaíba que chora

Observa-me
Olhos de despir rosas
Arranca-me
Pétala após pétala

Sopre-me
Aos ventos do mirante
Recolha-me
E cole as pétalas de volta

Deixe-me
Quando eu voltar a ser rosa
Pois de mim não levarias
Nada além dos espinhos

Pés de galinha

Numa fazenda do agreste morava Aninha
Moça limpa, asseada
De longe se via
Só não se sabia que com tanto apreço
Do galinheiro ela cuidaria

Semanalmente, sem maior intervalo
Aninha lavava, esfregava, perfumava
Quase que lustrava o galinheiro
Enquanto as galinhas passeavam e bicavam

E na volta das amiguinhas
Pro esforço não ser em vão
Esfregava os pés das galinhas
Com muita água e sabão

Depois de algum tempo
Tornou-se a piada da casa
Mas Aninha voltava
E de novo esfregava

Até que um dia seu primo
Gargalhando gritou: - Deixa disso,
Vai dar é frieira nos pés desses bichos!
Então Aninha passou também a enxugá-los.

Quereres

Eu quero um passado distante
E um futuro próximo
Eu quero a loucura dos desejos
Desejo paz

Paz que te quero sempre
Vida que me torce o osso
Ossos que se quebram, frágeis
Fortaleza de uma dama selvagem

Eu quero um beijo de sonhos roubados
E uma deixa dos sonhos vividos
Eu quero a sorte, eu quero a morte
A minha vida de viver no circo

Eu ando em busca do que não procuro

quinta-feira, 27 de março de 2008

Eu Sou

Eu sou
A luz que apagou
O medo da sombra
Esquecimento da dor
O quebrar da onda
Sofrimento de amor

Eu sou a doença
Que não tem cura
O são
Ao passo da loucura
Ferro que fere
Punhal que fura

O grande amor
Que um inocente procura
O grito de horror
Que ninguém escuta
O frio, o calor
A amargura

( 1999)